FLAMINGO
(Phoenicopterus_spp.)



UM NÃO
      Não!
    A palavra entrou dura, pelo ouvido, estourando o tímpano, rasgando as carnes; rompendo membranas; violentando o cérebro num estupro emocional.
    Causou o estrago e se foi, sem cerimônia, perdida em outros sons, em meio à massa de neurônios e sinais elétricos esparsos.
    Outras vieram, seguindo a trilha deixada por ela, mas não encontraram eco ou resposta neural alguma; pois ela, a palavra primeira, tinha devastado todos os recursos, extinguido a vida, tinha deixado sua marca profunda, sinais de agressão, luta e gozo forçado.
   O corpo ainda se recendia do impacto daquele fonema, em feixes de nervos retesados, fibras musculares tensas, rugas precoces que sulcavam o rosto, e um gosto de fel que invadia a boca, bílis refugada pelo organismo desordenadamente em pânico.
   A vista relampejou algumas vezes e turvou-se rápida, como que querendo não assimilar a imagem do momento. Falência orgânica.
   O cérebro primário, acostumado a agir sob reflexo, para assim garantir a sobrevivência, ainda tentou reagir, inundando de adrenalina a corrente sanguínea, numa tentativa inútil de conseguir uma resposta positiva do corpo, uma fuga rápida do fim iminente, uma esperança final de manter-se consciente e vivo. Esforço em vão, biorritmo cessado; fim.
  Tempo passado, convalescença, restabelecimento gradual das funções e principalmente das razões. Gerenciamento dolorido das sequelas deixadas.
   Normalidade aparente, de corpo e mente. Respirar de novo, por mais que o pensamento a isso refute.
   Seguir em frente, disfarçar a dor e dissimular a ira. E viver.

4 comentários:

Sérgio Pontes disse...

Adoro animais, gostei desta foto

Andreia disse...

Linda!

AndreiaL
http://omeuolharfotografia.blogspot.com/

ANRAFERA disse...

Muy buena toma, me gusta mucho las tonalidades que has logrado. Muy vistosa.
El texto complementa muy bien.
Cordial saludo.
Ramón

Torunn disse...

Beautiful colors and shades in the removal of the bird. Great picture.

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