QUERO QUERO
(Vanellus chilensis)




MAL ENTENDIDO
Era um dia normal de trabalho, como qualquer outro dia normal de trabalho pode tentar ser. Tudo ia transcorrendo da forma mais calma e pacata possível, como a muito tempo não se via por ali.
 
Era tudo de bom que se podia esperar, para uma tarde de sexta feira. Um final de semana chegando, um sol redondinho lá fora e o trabalho calminho, calminho.
 
Tudo iria ser assim, se; e infelizmente sempre há um “se”, aquele acéfalo representante de animal alado, não resolvesse entrar pela nesga da vidraça entreaberta e após algumas demonstrações de piruetas aéreas e vôos rasantes, de fazer inveja a nossa gloriosa esquadrilha da fumaça, acabasse pousando catastroficamente, bem no meio do decote acentuado da infeliz da secretaria sentada tranquila em sua mesa de trabalho.

Vale dizer aqui, que a mencionada, senhorita, era possuidora de dotes físicos perfeitamente esculpidos e ate de certo modo digamos proeminentes e que eram deixados à mostra pelo também citado decote, que era parte integrante de um diminuto vestidinho preto.

E o animal, resolveu cair exatamente ali, onde a grande maioria dos funcionários dali, dariam um pé direito, para acabar caindo.

A moça deu um pulo, um grito seco, e pois-se de pé, tentando desesperadamente, livrar-se daquele feliz intruso.

Nisso seu Zezinho, o senhor encarregado de nos trazer o que ele chama de café, entra na sala, na porta próxima a esbaforida moçoila, e vê a cena; ela em pé, com a mão arregaçando o decote, balançando aqueles... Bom, balançando... E gritando nessas alturas , já bastante alto:

-Tiraaaa, tira o bicho daí!

Seu Zezinho, não pensou duas vezes, baixou o zíper da sua calça e num movimento rápido tirou o “bicho” pra fora...

Coitado, foi demitido por justa causa.
COSPLAY
(Seto Matsuri - Curitiba 2011)



ESTRAGA PRAZERES
Tudo bem não ser perfeito, mas precisava ser assim tão errado?
Tinha nascido numa segunda feira às doze horas; errado no dia e na hora. Pois convenhamos que um meio dia de uma segunda, não é hora nem dia de mingúem nascer. Prematuro, nasceu na hora menos esperada.
...Horário errado...
Recém nascido, quando com fome, ficava mudo; quando satisfeito, punha-se a chorar.
...Avisos errados...
Canhoto completo; de mão, de pé e de mente.
...Coordenação errada...
Foi crescendo assim, erradinho, de tudo.
Nunca jogou futebol, nem dançou um samba; brasileiro e carioca, jogava basquete e ouvia blues.
...País errado...
Adolescente, fez de tudo o que podia, para ser o mais certo possível, e isso na década de setenta, onde ser errado era a coisa mais normal do mundo.
...Maluco errado...
Cresceu e foi trabalhar com química, a matéria que mais detestava no tempo de escola.
...Profissão errada...
Casou e ficou fiel a mulher, achando que isso era o certo.
...Fidelidade errada...
Amou-a, mesmo depois de tantos anos, manteve o amor intacto; mas perdeu-a
...Amou errado...
Pai; tratou os filhos como amigos, e eles partiram, p’ra não mais ver. ...Paternidade errada...
Morrerá assim, no meio de uma festa, bem na hora de cortar o bolo, ou no pipocar dos fogos de ano novo, morte torta, súbita, estragando prazeres.
Não poderá ser diferente.
...Morte errada...
AVESTRUZ
(struthio camelus)



DEU NO JORNAL
Deu no jornal:
“Bate na mulher e vai comer pipoca no banco da praça!”.

- Beenhê!
- Hum?
- Cê num falou que ia arrumar o varal hoje?
- Depois mulher, agora num to com cabeça pra isso, depois eu vejo o varal.
- Pôxa môr, você sempre fala isso e nunca arruma.


Era uma sexta feira, daquelas sextas feria, que com certeza eram feitas pelo cramunhão, de tão desgraçada que vinha sendo.
Alias, eta semaninha do cão!

Tinha chegado ate animado no trabalho na segunda, e de cara, recebeu a noticia:
- Ta havendo corte de pessoal...
O dia passou que ele nem sabe direito como, na hora do almoço, nem comer conseguiu.
Terça, logo na entrada, o patrão o chama de lado, num canto; ele estremece, sua frio, bambeia as pernas e chega perto já de joelhos.
- Pois é, como você já deve ter visto, estamos tendo que fazer uns cortes, ordens lá de cima, fazer o que né? Bom tivemos que despedir o “seu Juca”, lá do almoxarifado, e o senhor vai ter que assumir o trabalho dele.
- Lógico! Assumo qualquer coisa.
Patrão saiu, e ele desabou. Almoxarifado? Mas que diabo ele iria fazer lá? Ele nem sabia direito o que era um almoxarifado.

Quarta feria, cedo, um rapazinho de uns 18 anos, cheio de falar em nomes que ele sequer havia ouvido, recebeu-o na entrada do almoxarifado.
- Fácil, você, abre o Save Control of Stock no Windows, clica na aba correspondente ao item, e dá a baixa ou dá a entrada, conforme for o caso.
- Hum.

Mas que diabo era aquele tal de “uindous”? Oh dia de cão!

Quinta, cedinho, sentado na frente do computador, tentando achar em qual botãozinho enfiava o dedo, pra ligar aquela coisa.
Patrão chega por trás, quietinho.
- Bom dia!
- Hum?
- Bom dia vim aqui dizer pror senhor, que o senhor assumiu as funções do “seu Juca”, mas não é por isso que o SEU serviço pode ficar lá parado!
- Hum?
- Isso mesmo, aquilo lá ta parado!

Mas afinal,ou ele tentava ligar aquele tal de “uindous”, pra procurar aquele tal de seivicon, qualquer coisa; ou ia lá do outro lado do mundo pra ficar apertando parafusos, os dois num dava!

Sexta, hora do almoço, fazia uma semana que ele não almoçava, não sentava, não vivia em paz, um segundinho que fosse.
- Bom dia! Era o patrão!
- Hum ? Dia.
- Pois é, infelizmente, tenho uma notícia não muito boa pra lhe dar.

Pernas bambas, suor frio, tudo de novo.
- A situação da firma não anda lá muito boa, e recebi ordens de reduzir os gastos.
... Ué e eu lá sou gasto?
- Tento fazer o possível para não perder bons empregados como você. Mas para mantê-lo aqui, vou ter que reduzir seu salário em uns 30 por cento.
- Hum?!!
- Pois é isso ou demissão.
- Huumm?

.
.
.
- Mas bêeenhee... Você num faz nada mesmo né? Fica lá naquela firma só fazendo hora, ganha um salarião, e chega final de semana, nem em casa quer trabalhar?
- Vê se faz alguma coisa de bão sô! Conserta logo esse varal! Afinal minha mãe vem passar uns dias aqui, e quero lavar logo a roupa de cama.
- Hum? Sua mãe vai o que?
- Ué! Vem passar “uns mês aqui cum nóis”.

.
.
.
Splef !... Splef ! ....
.
.
.
- Oh, moço, mi dá ai um pacote de pipoca sargado.
OBSERVAÇÃO
(Mr.Pipoca, um dos gatos daqui...)

Observação 01


ANTES DO POR DO SOL
“ I had a dream – Crazy dream
Anything I Wantet to Know
Any place I needed to go…”

Robert Plant cantava com sua voz aguda e definitiva, enquanto eu deitado na cama, observava desatento o sol cair detrás do batente da minha janela.
Também passando acordado, por um sonho louco, também querendo entender algo, também querendo ir para algum lugar...

Tinha tanto para amar, e falei tão pouco;
tanto para escutar, e me calei tão pouco;
tanto a aprender, e sonhei tão pouco;
tanto a fazer, tanto a viver; tanto.

Antes que chegasse a noite,
antes que chegasse a hora,
antes que chegasse o agora.

Mas agora; creio era tarde,
o sol já se punha lá fora...

Para ouvir? CLIQUE AQUI
GARÇA BRANCA
(Egretta alba)



DOCE DE LEITE
    Dentro do tacho; sobre o fogão a lenha, o doce formava pequeninas erupções, imitando na superfície, pequeninos vulcões de lava doce.
   O cheiro de doce de leite invadia as narinas de quem quer que chegasse próximo cozinha.
   No canto oposto a ele, junto a pia, estava Lucia, quietinha lavando a vasilha de onde havia tirado o leite.
   Ele passou pela porta aberta, como já havia feito uma infinidade de vezes, indo em direção ao quintal; tinha enfim decidido acabar a reforma do paiol nos fundos da casa.
   Foi nesse passar, que o cheiro, deu de testa com ele. Ele segurou um pouco os passos, e respirou mais fundo, como querendo provar aquela delicia mais uma vez. Voltou um pouco, enfiou a cabeça pela porta e não se contendo, perguntou:

   - Ta fazendo doce de leite, Lucia?
   Ela virou rápida, como que meio assustada, seus grandes olhos negros, destacavam-se do rosto claro, seu cabelo escuro, jogado despreocupadamente por sobre os ombros, com a vira de corpo, vieram fazer companhia ao inicio do colo, junto ao decote do vestido de chita floria.

   - Estou sim, por que?
   Por um momento, ele esqueceu do doce. Por um breve momento, que pareceu durar um ano, ele notou algo que fazia tempo que ele não notava.
   Ela continuava linda, reparou que o decote estava maior que o normal, devido à petulância de um botão que havia resolvido saltar da casa, fazendo com isso que ele abrisse um pouco mais. Aliado a isso, o fato do vestido estar unido, devido aos vários respingos da pia, fazia que a silhueta dos belos seios fosse mais revelada ainda.

   - Por nada não, estou só perguntando.
   Notou as pernas, suas coxas, continuavam firmes e bem feitas, morenas claras, apareciam por baixo da barra do curto vestido. Sua anca larga e arredondada marcava em vincos a chita floria.

   - Já esta quase pronto, falta pouco.
   Aquela boca...

   - Me dá um pouquinho?
   Quente...Melhor ainda, aquilo tudo, daquele jeito e ainda quentinho...

   - Poxa, me da só um pouquinho, vai.
   - Mas não dá pra esperar?

   - Não! Agora!
   Ela foi ate a beirada do fogão, com um pratinho na mão. Sem notar, mas balançando aquela anca, de um modo incrível. Serviu uma concha do doce pelando, e voltou pra onde ele estava.

   - Tome pode comer, cuidado que esta muito quente.
   - Doce? Mas quem diabos quer doce agora?
JACUTINGA
(Aburria jacutinga)



SUICÍDIO DE UM LOUCO
   Como um Icaro, ele abriu os braços e pulou no vazio. Imediatamente uma leve brisa, surgiu, como que enviada por deuses e sustento-o no ar.
   Viu cavalos que pastavam tranquilos nos verdes prados abaixo, viu que a água evaporada do imenso lago formava no céu, um arco íris digno de um Gogin.
   Ele respirou profundamente o fresco aroma que exalava das papoulas rubras que ladeavam a margem esquerda do lago e fechou os olhos.
   Sonhou com lindas ninfas seminuas, de longos cabelos dourados, lábios de rubi e seios fartos.
   Sonhou com viagens e lugares que não conhecia nem de sonhos já sonhados.
   Espalmou as mãos em asas, e vôo mais rápido, como um jato, viu pessoas atarefadas demais para vê-lo voar, viu crianças sendo levadas pelas mãos maternas a um destino incerto, viu carros velozes e pessoas da lentas.
   Como aquilo tudo era lindo, como era maravilhoso poder voar.
   A brisa foi ficando cada vez mais forte, mais veloz, o chão foi tomando cada vez mais o seu campo de visão, aproximação vertiginosa.
   Morreu quebrado, torto, largado feito uma marionete sem cordel, preso no toldo da portaria do seu prédio.
ÁGUIA CHILENA
(Gernoaethus melanoleucus)




ESTALO
   O tabefe estalou ardido na cara, mais aviltante que dolorido.
   Um “fala filho da puta” acompanhou o segundo tapa.
   - Fala logo seu merda! Ou quebro você na porrada.
   - Sei p’ra onde foram não.

   Ele tinha sido pego, com a mão na botija, em fragrante, arma em punho; os outros tinham fugido, p’ra onde era que se queria saber.
   A frase foi bruscamente interrompida, por um violento soco, que acertou em cheio o olho esquerdo. O supercílio abriu, derramando um risco fino de sangue pela lateral do rosto.
   - Fala seu corno, ou você morre aqui.
   - Já disse, não sei não!

   Um pontapé covardemente desferido, pelas costas, tirou-o da cadeira, fazendo com que ele caísse no chão. Ficou ali, sem se mexer, acuado e com dor.
   - Fala logo! Logicamente acompanhado por outro chute, agora dirigido às costelas. Um som surdo, abafado, de tambor com couro frouxo, e um arfar forçado se vez ouvir na sala.
   O bandido continuava deitado, encolhido no chão, mãos algemadas e pés amarrados; preso. Seus interrogadores, estavam em pé, sobre ele, confirmando que era fácil bater em alguém amarrado daquele jeito.
   Mãos o pegaram pelos braços, e prenderam-no numa vara de bambu, mãos nas pernas, joelhos, braços, coxas, tudo cruzado, pau de arara!
   O meliante esboçou um esgar e dor, e tentou em vão sustentar a peso do corpo.
   Soltou-se e uma dor vindo devagarzinho, tornou-se de repente violenta, irremediável e insuportavelmente doída.
   Chorou, gritou.
   - Ai, me tira daqui, eu não sei de nada!
   - Dançou seu corno, agora você vai morrer...
Disse o torturador e desfechou uma cacetada contra as costas arcadas do suspeito. O baque alto, acompanhado do som peculiar, delatou a fratura de algo.
  Isso continuou assim por horas, ate que um golpe um pouco mal dado, acabou de vez com aquilo tudo, o pescoço estalou como um graveto quebrado; fim de tortura.
   - Pô morreu o sacana!
   Dia seguinte, no jornal, uma manchete pequena, noticia a morte de um bandido e traficante, numa briga de gangues.
  
  ...Brasil; Deus nos livre dos bandidos, e nos proteja da polícia.
URUMUTUM
(Nothocorax urumutum)




CONSTRUÇÃO
(Da Refinaria de Araucária - Paraná)
    Aquilo era da cor de tijolo, não sei eu se pelo fator de ter uma cor característica de barro cozido, ou pelo fato indiscutível de realmente ser um tijolo.
    Pois bem aquele perfeito exemplo de um paralelepípedo, moldado em argila, era ate momentos antes do ocorrido, um ótimo exemplar de um tijolo de seis furos, bem feito e bem cozido, como um bom tijolo deveria ser. Talvez, seu único e derradeiro deslize, literalmente falando, tenha sido o fato de não ter-se esforçado um pouco mais em ficar unido à mão daquele auxiliar de pedreiro encarapitado no alto daquele andaime, a uns dez metros de altura.
   Bom fato consumado, ele o dito tijolo, veio a soltar-se da mão que o sustinha, e desabou em direção a terra.
   Tendo-se em mente, que dados como a massa do dito, é facilmente levantada, e a aceleração em nossa gravidade é plenamente conhecida; fica obvio, que é fácil calcular, o tamanho do palavrão que soltei, quando esse digno material de construção civil , passou raspando pela aba do meu capacete e esborrachou-se no bico da minha bota.
  Esse fato talvez nem seria lembrado, ou no máximo o seria como um mero número a mais, num levantamento gráfico de incidentes trabalhistas, se infelizmente um agravante, não tivesse se feito presente.
  Talvez por sina, ou ate ato divino, o tijolo mencionado, resolveu suicidar-se caindo, como já foi dito, exatamente no bico da minha bota esquerda, que por sua vez, abriga quase maternalmente o Zeca. E aqui, cabe uma ressalva; Zeca, para quem ainda não teve o duvidoso prazer de conhecer, é meu calo de estimação, calo bem formado, com caráter e personalidade; calo conhecido em casa, quase família; concebido faz tempo, devido ao uso constante de botas de couro grosso e cano alto, aliado com certeza, à posição pouco ortodoxa adotado desde nascença pelo meu dedo minguinho.
  Esse é o Zeca, meu calo, companheiro infelizmente inseparável, e estranhamente imortal, dado que continua desafiando impune, pedólogos e pedicuros por ai.
  Mas voltemos ao tijolo em questão, espatifou-se ele, sobre o Zeca, fazendo ecoar naquele canteiro de obras da futura refinaria, um “fii-lhoo daa puu-taaa” tão cadenciado e alto, que com certeza teria alterado em alguns pontos um sismógrafo, que por acaso tivesse instalado por ali.
  Grito dado, reflexo de pé erguido, olho instintivamente para o local de onde teria partido aquele míssil balístico, e vejo, o causador da minha angustia. Um dos muitos “Zeferinos” que circulavam por ali naquela época, rosto miúdo e corpo mostrando as marcas da inanição da infância e o mal trato da vida adulta, crânio enfiado num boné de campanha eleitoral, pendurado precariamente num andaime suspenso. Olhava assustado para mim.
  - Descurpe dôtô! Iscapô...
  Pois é, fazer o que? Mancar indo embora dali.
Gatos
(Felis silvestris catus)

Todos aqui de casa...

LOUCO
  Tenho uma coleção de talismãs roubados,
uma escova de dente de cabo colorido,
e elásticos de dinheiro, usados como pulseiras.

  Tenho uma pistola automática alemã, doze tiros
comprada de um ex-amigo delinquente e preso,
mas mantida sempre sem munição alguma.

  Tenho um pôster antigo e desbotado de Hendrix,
pendurado atrás da porta fechada do meu quarto,
encoberto por uma camiseta suja, presa num prego.

  Tenho nos dedos manchas de nicotina e, jogada
na cabeceira da cama uma colher de prata falsa,
presa numa corrente velha; já a muito sem uso.

  Tenho um sonho que sou cremado vivo,
ouvindo o som de Stairway to Heaven solado,
num guitarra afinadíssima, ao meio de vivas e palmas.

  Tenho braços e pernas transplantados, emprestados;
órgãos que me foram impingidos brutalmente à força,
que estão aos poucos deixando de me serem úteis.

  Tenho olhos que sente cheiros, que os outros não vêem,
ando ultimamente sentindo imagens e respirando sons,
sinto a nítida impressão que estou enlouquecendo.
Deu ZEBRA...
(Equus burchelli)



CRAQUE CAIPIRA
   -Chuta...Chutaaaa...Chuta a bolaaa!
   Era assim que falava Tunico, correndo feito boi bravo na lateral do campinho de mato roçado.
  A desgastada bola, é enfim passada a ele, meio de lado, torta, errada de tudo.
  Tunico era habilidoso, pelo menos pra isso ele era. Ajeitou a bola nos pés descalços e partiu ligeiro em direção as traves feitas de bambu. Saiu de lado de um pontapé maldoso, pulou por sobre as canelas de outro e chutou, com a perna grossa, acostumada a puxar tronco na roça.
  A bola saiu firme, rápida igual foguete e passou direto pelas traves sem rede, indo esconder-se lá no meio do milharal.
  - Gooolll! Gritava o Tunico, num misto de artilheiro e locutor de radio.
  Final de jogo, pois a partida era “de cinco” e aquele tinha sido o quinto gol, o terceiro do Tunico.
  Despediu-se dos amigos, e pegou a picada em direção a sua casa. Andou coisa pouca, cerca de uma léguinha.
  Entrou em casa esbaforido como sempre entrava, foi direto pro fundo do quintal, onde ficava a chuveiro de balde, tirou a roupa suja de terra e suor, encheu o balde de água do poço e tomou seu banho do dia.
  Feito a limpeza, voltou pra dentro de casa, para junto de onde estava sua mãe; beira do fogão a lenha, lenço florido amarrado na cabeça, cheia de afazeres.
  - Tô cum fome.
  - A comida ta na chapa, é só pegá.
  Ele já estava com o prato na mão, e nem esperou a mãe terminar a fala, foi logo se servindo; prato farto, cheio de bom feijão com toucinho e carne de frango caipira frita na banha, polenta e um grande naco de pão caseiro.
 - Fiz três gor hoji. Tava jogandu bem barbaridadi.
 - Contra quem ceis jogaram ?
 - Ué, contra o time de Tinho, lá da fazenda Parmeira.  - Por isso cê feiz três gor, eles são tudo uns perna de pau.
 - Ô! Qui nada, eles são inté bão. Eu é que joguei bem mermo.
 - Ta bão, cala e come!
 - Senhora vai vê... Ainda vô ficar famosu, joga na seleção, aparecê nas revista e nos jornar.
 - Ta bão moleque, então antes disso, come seu prato e vá ajuda seu pai na roça!
SOLIDÃO



CHUVA
   O vento estava cada vez ficando mais forte, arrancava folhas das árvores, levantava poeira das ruas, e trazia consigo, lembranças de lugares distantes.
   Sentia-se no ar, o cheiro da tempestade iminente, o céu transvestia-se de um cinza escuro, com riscas de azul, parecendo estar trajando um traje de gala noturno.
   Ao longe se ouve um tambor, um troar de bumbos aéreos; ou canhões disparando do céu numa guerra de titãs.
   Um raio cortou a escuridão e extinguiu-se longe dali, depois outro, passou mais perto como que rabiscando de luz o céu; nuvens pretas de temor e fúria rodopiavam por sobre minha cabeça, imitando um carrossel celeste.
  Um pingo, solitário e tímido veio acertar meu rosto, prelúdio de muitos outros que estavam marchando a caminho. Outro me acerta o peito, depois outro, e outro, outro, e outro...
  Despenca o dilúvio, o banho de Deus, o cair das águas, o deixar ficar, o de novo ser criança, ser limpo, travessura e asseio.
Abro meus braços como que prostrado no chão molhado, abraço ao mundo, ergo a cabeça entreolhando humilde o céu revolto.
  Aproveito o disfarce da água e choro, solto minhas lágrimas contidas, seguras, choro meu choro reprimido.    
  Mistura de chuva e choro, dor e natureza.
  Lavo minha alma, meu corpo, meu rosto. Molho, olho, e sigo em paz meu caminho molhado e só.
QUADROS


Em homenagem a recém chegada Primavera...


O QUADRO
Casa abandonada, caída, sozinha.
E eu permanecia ali parado, espreitando aquela parede,
Antiga, velha, trincada; a tinta desbotada pelo tempo,
um prego bambo e mal pregado, segurava um quadro.
Abstrato, confuso, mal feito, colocado ali muito depois.
E eu permanecia ali parado, imaginando, notando,
minha vida era muito semelhante a aquela cena.
Algo estranho, incompreensível como aquele quadro e
também precariamente sustentado por algo que eu não fiz.
SUINDARAS
(Tyto alba)




DIGA AO POVO QUE FICO!
   Subiu correndo a ladeira de barro, como um bicho acuado e treinado, pulando mais que correndo.
  Foi largando as havaianas pelo caminho; o maço de cigarros ficou lá caído, deitado no barro, defunto de fumo.
  Tropeçou pelas latas de e do lixo, esbarrou em velhas e estatelo-se em tetas de moças, mão à frente, arma em punho, baixada na lateral do corpo, prejudicando o correr, mas segura com a força de uma vida.  
  Entrou pelo barraco de tabuas furadas; cupim e tiros; saltou por sobre a TV ligada no discurso da Dilma, meteu o pé na porta do quarto, cama de colchão fino, jogado em papelão no chão, abriu a caixa do tênis Nike, achado no lixo e tirou de lá os rojões “três tiros”. Voou para fora, acendeu o primeiro e esperou o esporro.
  Pam, pam, pam, pipocaram no céu os fogos, acendeu mais um, mais outro, mais outro. Sem comemoração, sem gol de time, sem passagem de ano novo, ou fim de festa de casamento de bicheiro.
  Quatro! Alerta vermelho, corrida de vida, invasão de território, policia na área.
  No primeiro alerta, as coisas pararam, ate o respirar fez-se miúdo; no segundo cadeiras voaram, corpos tesos, pés em pé. Terceiro, armas e pacotes em mãos e nas mãos ocultos no culto, nas camas, nas coxas. Quarto alerta; mal apaga o fogo no céu e como num triangulo de bermudas, some-se o povo, o tiro, o fogo, o morro.
  Lá em baixo, abrigado por uma banca de jornal falida, um repórter da "bobo", anuncia a vitória ganha, bastilha caída. Solução alcançada.
   Engana o povo alheio, estrangeiro em pleno seio da terra natal, estranho ao meio pátrio.
  Apagado as luzes, guardadas as câmeras, retirado obuses, o morro volta ao samba, pagode, carnaval. Impune e livre como quer ser.
  Dinheiro ganho, pão garantido, foguetes repostos, a postos, soldado do trafico, diga ao povo que eu fico!
CAPIVARAS
(Hydrochoerus hydrochaeris)
Nado Sincronizado



SE
Se eu fosse soldado, seria assim; um padre armado,
rezaria a Deus, e se o diabo aparecesse atiraria  na cara do safado.

Se eu fosse trabalhador, seria assim, um presidente,
eleito e no leito;  mentindo na mente, como um demente.

Se eu fosse pássaro, seria assim, um avião,
despejando bombas e merdas pelo chão.

Se eu fosse escritor, seria assim, um garimpeiro,
cavando fundo em busca do dinheiro.

Se eu fosse santo, seria assim, um humano,
fazendo trapaças a conluios por baixo do pano.

Se eu fosse alguma coisa, seria assim, gente,
demente, colocando no papel, o que me vem na mente.
MICO LEÃO DE CARA DOURADA
(Leontopithecus chrysomelas)


É sabido (e amplamente provado e estudado) que os genes de seres humanos coincidem em 99% com os de alguns macacos; isso quer dizer que somente 1% dos genes nos diferenciam deles; mas vendo alguns símios, tenho a nítida impressão que deve ser bem menos que isso.
Por outro lado, observando o comportamento de alguns humanos, fico pensando se realmente entre nós e eles ouve mesmo a chamada evolução, ou na verdade nós é que somos os não evoluídos...

INVERSÃO DE PAPEIS
“Na mata Atlântica, existe; se é que já não foi extinto, um pequeno periquito, todo verde, conhecido popularmente por Tuim que é muito difícil de ser mantido em cativeiro.”

   Tuim acordou cedo naquele dia, com uma nesga de sol, que passava pela janela mal feita do barraco onde morava. Pulou da cama, meteu as havaianas nos pés e foi ate o tanque lavar a cara e bochechar um pouco d’água.
   Depois disso, circulou por onde geralmente a mãe fazia a comida, pra ver se achava algo, mas nada achou. Deu de ombros e foi pra fora.
   Dia lindo, “solsão” ardendo já cedinho, e o melhor de tudo era sábado; dia de folga, não ia precisar ir pras ruas vender doce nos sinais de transito.
   Pulou a vala da frente da casa e partiu em direção ao barraco do outro lado do beco.
   - Zicooo! Oh! Zicooo! Berrou ele na porta da frente.
   - Fala ai Tuim, o que é porra!
   - Vamu brincar ou não cacete?
   - indo, vou ponhá o calção. Vai chamar o resto que encontro vocês lá no campinho.
   Tuim saiu chispado, pela viela barrenta e sumiu por trás de um barraco feito de zinco e compensado de caixa de geladeira.
   Pouco depois, estavam, ele, Zico, Meleca, Pitoco, Chabu e Neguinho, no tal campinho, onde eram disputadas clássicos incríveis de futebol; pois ali jogavam às vezes, Flamengo contra o Vasco, o Corinthians contra o São Paulo, a ate mesmo o Milam contra o Juventus de Parma, tudo dependia somente da vontade da gurizada do bairro.
   - Vamo jogar bola de novu?
   - , tem outra coisa pra fazer? Perguntou Chabu com aquela cara redonda e sua constante fisionomia de abobado.
  - Tem; craro, nóis podia brinca de mocinho e bandido. Argumentou Pitoco, louco pra ter como usar o revolve de brinquedo que tinha achado uns dias atrás numa lata de lixo, lá na cidade, enquanto ajudava o padrasto a catar papel.
  - Ta bão  a gente brinca de mocinho e bandido. Vamos dividir o pessoal.
  - Eu quero ser mocinho! Gritou o Pitoco, já exibindo o revolvinho de plástico vermelho.
  - E eu bandido. Disse Tuim.
   Tuim, Chabu e Neguinho eram os bandidos; mesmo que o Neguinho tenha meio que não gostado da coisa, pois chegou a reclamar:
   - Pô; vô ser bandido só porque sou nego né?
   Pitoco, Meleca e Zico seriam os mocinhos. Combinaram a “regras”; e outras coisas importantes.
   -Oh! Levou um tiro morreu heim porra; num tem essa de escapou...
  Pitoco, Meleca e Zico, os mocinhos, iam subir o morro e trataram de se organizar e armar; armas imaginarias, feita de pedaços de ripas, e galhos cortados.
  Tuim e sua gang bandidos, já estavam lá no alto armados, ate arranjaram uns pedaços de saco de plástico onde embrulharam uns punhados de terra, fazendo a vez da preciosa muamba.
  Pouco depois, a brincadeira realmente começou; Pitoco e seus mocinhos subiram o morro, armados ate os dentes, dando tiros imagináveis e inúteis pra todo lado; atirando em tudo o que se movia. Quando chegaram perto de onde estavam os bandidos, foram logo gritando:
   -Polícia! todo mundo preso!
   Foram recebidos por uma saraivada de tiros e morreram todos; afinal os bandidos sempre ganhavam...
OLHOS
(Hamu Matsuri 2011)


Quer ver mais? Aqui tem...

FUTURO
    Um mundo inteiro recoberto em cinzas; estranho e colossal.
    O homem torto, meio morto; um ser irracional.
    Em verdes campos, minas implantadas; em terras frias, gritos e rajadas. Estranho e racional.
   Crianças mortas, briga em cada esquina, meninas mortas, novas rua acima, se definhando em amores animal.
    Homens curvados, em busca de alegrias, busca de loucos, busca já vazia.
    É um mundo inteiro, degradando a vida, um mundo estranho, inerte colossal.
FLAMINGO
(Phoenicopterus_spp.)



UM NÃO
      Não!
    A palavra entrou dura, pelo ouvido, estourando o tímpano, rasgando as carnes; rompendo membranas; violentando o cérebro num estupro emocional.
    Causou o estrago e se foi, sem cerimônia, perdida em outros sons, em meio à massa de neurônios e sinais elétricos esparsos.
    Outras vieram, seguindo a trilha deixada por ela, mas não encontraram eco ou resposta neural alguma; pois ela, a palavra primeira, tinha devastado todos os recursos, extinguido a vida, tinha deixado sua marca profunda, sinais de agressão, luta e gozo forçado.
   O corpo ainda se recendia do impacto daquele fonema, em feixes de nervos retesados, fibras musculares tensas, rugas precoces que sulcavam o rosto, e um gosto de fel que invadia a boca, bílis refugada pelo organismo desordenadamente em pânico.
   A vista relampejou algumas vezes e turvou-se rápida, como que querendo não assimilar a imagem do momento. Falência orgânica.
   O cérebro primário, acostumado a agir sob reflexo, para assim garantir a sobrevivência, ainda tentou reagir, inundando de adrenalina a corrente sanguínea, numa tentativa inútil de conseguir uma resposta positiva do corpo, uma fuga rápida do fim iminente, uma esperança final de manter-se consciente e vivo. Esforço em vão, biorritmo cessado; fim.
  Tempo passado, convalescença, restabelecimento gradual das funções e principalmente das razões. Gerenciamento dolorido das sequelas deixadas.
   Normalidade aparente, de corpo e mente. Respirar de novo, por mais que o pensamento a isso refute.
   Seguir em frente, disfarçar a dor e dissimular a ira. E viver.
PRAIA



P A U L I S T I N H A
“Quando lembro daquele dia, recuso-me a pensar em qualquer coisa que não seja naquilo...”

      O sol estava forte, o dia limpinho, sem uma nuvem sequer no céu.
      A praia estava do jeito que a gente gostava, nem muito cheia, nem vazia de tudo, simplesmente estavam lá, o mesmo pessoal de sempre, os velhos nas mesmas barracas, as mulheres nos mesmos biquínis, os mesmos paneleiros metidos a surfistas, o pessoal do frescobol, do futebol, a galera amiga do surf, e nós, os mesmos vagabundos de praia.
      Já tínhamos cumprido nossa cota diária de água, e de “vacas”, e estávamos sentados no meião da areia, na sombra das pranchas cravadas de pico na areia fofa. Estávamos ali, vagabundeando, admirando vez por outra os feras na prancha em suas manobras ou mesmo esticando um ou outro olhar matreiro pra uma visitante de passagem pela nossa faixa de praia.
      Vez por outra, dependendo da disposição, ou mesmo da animação causada por uma manobra bem feita, entravamos na água novamente por algum tempo, e quando não era isso, era pra dar um desaguadinha mesmo, que ninguém era de ferro.
      Essa era nossa rotina quase diária naquela época, praia, praia e praia.       
      Nossas peles, mais pareciam couro, e nossa cor, beirava a um castanho escuro; de branco poucas partes escondidas.
      Foi num desses dias, que ele nos apresentou sua prima vinda de São Paulo.
     Tirando a “cor de cera de vela”, a paulistinha era qualquer coisa de virar a cabeça de qualquer mortal. Tinha lá seus dezessete, dezoito aninhos, criada com certeza a base de cereal matinal importado com fruta fresca e mel de abelha. Cabelos castanhos claros e um belo par de olhos verdes. Perfeita, certinha pra usar à sombra de minha prancha...
   Isso tudo, vinha embalado, num pequeno biquíni preto, cavadinho, novinho em folha.
   Ela toda entusiasmada por conhecer os “amigos surfistas” do primo, e nós, mais que nunca, achando nessas alturas que o primo, era o cara mais legal do mundo.
      Ficamos ali sentados, ate que ela e o primo resolveram dar um mergulho rápido, “pra tirar o calor”; coisa de desacostumados. O mar, nesse dia, estava ótimo para o surf, ou seja, ondas altas e freqüentes.
      O primo, macaco velho, sem problema correu no meio das marolas e “pulou de ponta” furando uma onda baixa; e ela, a paulistinha linda, foi atrás, pulou de um lado e saiu do outro, molhada, linda, com a parte de cima do biquíni meio fora de lugar, deixando aparecer um algo a mais.
      Mas o que nos causou um reboliço indisfarçável, foi o fato de que a parte de baixo, estava exatamente onde imaginávamos, bem sobre os joelhos...
      Naquele dia na Barra, ate as ondas pararam.
COLHEREIRO
(Platalea ajaja)


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MURO MONUMENTO
     Estrada do Pau Ferro, Jacarepaguá.
    A gente estava sentado ali fazia já algum tempo. Alias, aquele muro baixo e largo, era um ponto já bastante conhecido e frequentado pelos desocupados de plantão.
    Era uma tarde morna e calma, como são mornas e calmas as tardes de outono no Rio. E nos estávamos ali, bermuda de calça de brim cortada, camiseta surrada, chinelo gasto jogado no chão.
    Um bate papo bastante intelectual, formava nossa conversa; Hendrix, convertido em ondas boas e depois transformados na bonita irmã do garoto recém chegado ao bairro; passava por nosso eclético dialogo.
    Ficávamos horas sentados ali, conversando fiado, sonhando com o dia em que um estaria em pleno Carning Hall, levantando a platéia com um solo de guitarra digno de um Gilmour, enquanto o outro, em um dia ensolarado, levantava a taça de campeão do torneio mundial de surf.
    Ficávamos ali, sentados, ate que a noite chegasse e fossemos forçados a ir gazear mais uma aula.
   Tempo passado, jamais perdido, mas passado. Formação de corpos e mentes, adequada ou não mas formação.
    Ficávamos sentados ali, mirabolando mundos, prevendo o imprevisível, traçando rumos imagináveis para um futuro de fantasia.
    Definitivamente bons tempos.
    Mas a ampulheta do nosso tempo, foi virada vezes e vezes, e ele, o tempo, passou como tinha mesmo que passar.
    Um trocou os solos, pela mecânica, jamais deve um guitarra, mas ainda hoje quando dorme ainda sonha com a platéia em pé; o outro, trocou a prancha pela prancheta de desenho, e indo para o planalto central, acabou abandonando de vez o mar, mas ainda mantinha uma velha prancha pendurada na parede da garagem.
    Anos depois, o muro ainda estava lá, de pé, monumento erguido em homenagem aos sonhos passados de jovens amigos.
QUERO QUERO
(Vanellus chilensis)



O Interessante dessa foto é o fato desse pássaro estar à beira mar. Apesar de costumar habitar beiras de lagoas e/ou charcos, ele não é comumente visto em praias.

SAUDADES
    A garrafa de absinto jazia ali, caída sobre a mesa, vazia como o nada, seca como uma múmia.
    Seu estonteante teor alcoólico tinha sido transferido, molécula a molécula, por minha corrente sanguínea, para a parte posterior da minha parca massa cerebral.
   Um soluço a tempos reprimido, enfim sobre-nadou o álcool e escapuliu jocoso pela boca. Chorei.
   Respiro fundo dou-me ar, aspiro lentamente por entre os dedos, na vã procura de um resquício que seja do teu cheiro; nada. Teu perfume e teu gosto, já a muito deixaram de fazer parte dos meus sentidos.
   Agarro a caneta jogada na mesa, e bêbado (pois todo bêbado pensa ser poeta), tento rabiscar um verso no tampo da mesa envernizada; “Vida vazia...” escrevo com uma letra tonta e desregrada.
   Nada mais faço, o absinto cobra rápido seu preço exorbitante, tamborila surdamente nas minhas têmporas.
   Debruço sobre a mesa e desfaleço. Desmaio provocado, em desespero, abandonado ali. Permaneço.
   Amanhã, levanto, acordo, recobro mais ou menos meus sentidos, com a sensação mesquinha de ressaca e uma vontade irreparável de você.
ABANDONO


PARTIDA
    Dizem que ele não falou nada; somente abaixou a cabeça e saiu.
   Havia feito tudo o possível para evitar aquilo, tudo o imaginável para tentar reverter o quadro que se pintava ao longo do tempo, mas não conseguiu, não teve capacidade para tal, o mais provável era que todo o resto tinha sido mais forte que ele.
   Dizem alguns, que mesmo cabisbaixo, notaram escorrer pelo seu rosto triste, uma lagrima furtiva, escondida pelas rugas feitas pelos anos vividos.
   Dizem que partiu calado, arrasado pela realidade a ele imposta, à força, goela abaixo, gosto amargo de fel e fim.
   Havia enfim chegado o momento repudiado, evitado, temido como uma dor profunda. Quem viu, que por perto estava, no momento desse apocalipse, desse holocausto pessoal, conta hoje, que ele não falava, que manteve os olhos baixos, mãos nervosamente tremulas junto ao corpo e uma estranha fisionomia, só vista em certos condenados momentos antes de serem executados.
   A sentença decretada e espalhada aos quatro ventos pelos arautos da lei humana, causaram o estrago na humana criação divina, dizimara o homem e aprisionara para a eternidade a alma ao inferno.
   Separação realizada; como se isso fosse possível, como se viável fosse separar em vida, corpo e coração ou o ar da vida. 
   Dizem que ele saiu, deixando atrás de si, um rastro de sofrimento e dor, tão grande, que de tão intenso tornou-se concreto, que se podia toca-lo e pisar nele; e aqueles que ousavam faze-lo, sentiam uma tristeza tão profunda, tão avassaladora, que poucos podiam sustentar a postura e acabavam deixando escapar um soluço de dor e desespero. 
   Foi embora assim carregando moribundo sua dor e sua recém adquirida condição de homem só.
Se os olhos são as janelas da alma...
Mr.Pipoca (Um gato aqui de casa)
(Felis silvestris catus)



BLUES
Um canto, num canto, um bar,
um chopp gelado, passado,
parado na toalha suja da mesa;
um cigarro tragado, medos...
Um jeito cansado de sentar, e de ouvir,
uma mente ativa, pensativa, dedos...
Batuque na mesa, suja e muda, aos bons;
uma gaita diatônica, um gim tônica, sons...
Uma voz rouca e louca, mente, trens;
um descanso, uma pausa, paz, bens...
Uma musica, um choro, um quadro,
sonho que compus ?
Não, uma gaita, um bar; um blues.
SERIEMA
(Cariama cristata)


 A BOCA

"Tu podes ser senhor do que falas; mas serás um eterno escrevo do que dizes"
(Lao_Tsé)
   A boca, inconsequente e delirante, como era, escancarou-se num berro alto e indevido.
   - Basta!
   Foi um basta, gritado, extraído com dor do fundo do corpo, sem anestesia, sem carinho, deixando vago na alma, seu suposto espaço.
  O grito; o basta, extrapolou a barreira do corpo, ressonou nas paredes próximas, quebrou vidraças e ganhou a liberdade das ruas.
   Sujo de saliva e sangue, misto de onda sonora e corpo vivente, era um basta consistente e concreto.
   A boca, havia sido criada para aquilo, ser o que era, fazer o que vinha a séculos fazendo, quieta, resignada, calada e cordeira. Ele, menino, filho, homem, esposo e pai.
   Trabalho, casa; casa, trabalho...
   Sentiu; homem, dores de parto; nadou em amores renegados, andou descalço em saldos sem fundos, em contas, em desamores, em trabalhos e em casas.
   Trabalho, casa; casa trabalho...
   Cérebro metálico, peça quase biomecânica, tão frio e controlado que era, não deixava transparecer nada, a não ser o traço de despreocupação e contentamento, na face externa e diariamente estudada.
   Mas a boca; sempre ela, tentava falar, como um vicio difícil de largar, como uma praga daninha que não se aquieta e não desiste de invadir o calmo campo semeado de candura.
   Boca safada, insistente e atrevida, querendo fazer-se pensante, metida à massa cefálica.
   Boca controlada a força, camisa de força feita de nervos e remorsos; temores e preocupações. Contida com esforço em prisão domiciliar.
   Cérebro, atento a tantos outros tentos, tantos outros tortos, tantos outros outros; que se cansa, e como corpo, fraqueja e manca.
   A boca matreira, esperta e louca, aproveita a deixa e berra!
   Manda a merda a terra, a casa, a vida; a fera.
   Abre, se escancara e com simples fosse grita:
   - Basta!
Olho no olho...
PICA PAU BRANCO
(Melanerpes candidus)



Encontrei-o tomando banho; fui chegando perto bem devagar e ele continuou ali.
Com a máquina num monopé, tirei algumas fotos dele no banho.
Depois de um tempo, ele foi pousar num galho próximo, ao sol, mais uma vez me aproximei o que pude, acabou que me deixou fazer esse close-up. Só quando cheguei em casa e ampliei a foto, foi que notei a textura interessante das penas da cabeça dele.
URUBU REI
(Sarcoramphus papa)


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DESTINO
Então seria assim, o mundo iria mesmo acabar em fogo ou em água, dependeria somente do humor do deus de plantão no dia.”

Foi andando despreocupadamente pela larga avenida deserta, ate chegar em frente do endereço almejado. Era o numero duzentos e quarenta e seis daquela rua, uma casa baixa, velha e destoante do resto da rua.

Abriu o rangente e enferrujado portão.
- Preciso dar um jeito nesse portão.
Atravessou o que um dia deveria ter sido um bonito jardim, mas que hoje era somente um amontoado de mato seco e lixo espalhado.
- Um dia tenho que limpar isso.
Meteu a mão no bolso puído da velha calça jeans, achou a chave; abriu a porta e entrou.
Jogou-se cansado no sofá velho e sujo da sala e ligou a TV; acabou dormindo ali; desajeitado entre um comercial de sabão em pó e um de creme facial.

A quilômetros dali, o dia transcorria massacrantemente normal.
- Viu, senhor Paulo, é por isso que lhe disse, que acabei vindo aqui falar com o senhor.
- Pois é seu Jose, eu ate entendo sua dificuldade, estou ate solidário com o senhor, mas estou com as mãos atadas, nada posso fazer agora, espere um pouco, vamos ver daqui uns meses.
- Sim senhor... Disse Jose saindo da sala. Chefe filho da puta! Falou baixinho já no corredor.
Entrou na sala ampla e iluminada, vários instrumentos brilhavam, piscavam, indicavam tensões e amperagens. Ele largou-se na cadeira e olhou desanimado para tudo aquilo.
-Quinze anos...Quinze anos ali, e quando precisa do chefe, ele nega fogo. Filho da puta!
O alarme toca, sobrecarga na linha três. Ele hesita, bravo, aborrecido, desanimado da vida e do trabalho.
O alarme toca insistente, ele levanta da cadeira e aciona a alavanca de desvio, o alarme para o grito rouco. Apenas segundos se passaram, nada anormal aconteceria.

O grupo musical que fazia sucesso naquela semana balançava a bunda na tela da TV, e ele continuava a dormir pesado.
Quando ocorreu uma rápida e inofensiva sobrecarga na rede elétrica.
Inofensiva mais suficiente para causar uma pequena faísca, na velha tomada da velha TV. A faísca achou o pó, acumulado a séculos ali, incendiou-o de imediato.
O fogo sumiu rápido pela cortina suja, atingiu o teto de madeira, e transformou a sala num aceiro.
Ele morreu ali; dormindo ao som das bundas.

“Tudo dependeria somente do humor do deus de plantão no dia.”
PAVÃO
(Pavo cristatus)



SEMENTES, SÊMEN & MENTES
    Ela estava ali sozinha, o peso sobre ela era imenso, tão esmagador, que qualquer um acharia impossível sobreviver.
   Não bastasse o peso e a escuridão em que se encontrava, a falta d’água, começava a cobrar seus efeitos, ela ressentia-se da desidratação a que vinha sendo submetida.
   Pensou em desistir, em simplesmente deixar-se possuir pelo fim, tão desesperadamente próximo, tão tentadoramente confortável. Deixar-se levar, findar a esperança; pois seria rápido, definitivo e tranqüilizador.
   Não mais teria as certezas das preocupações futuras. Acabaria ali, largada; ate que, como citam as tais escrituras, se fizesse em pó. Não mais tendo a preocupação de crescer, tornar-se ser, criar raízes e descendentes, que lhe trariam de certo, problemas; mas que levariam adiante, pela vida, seu nome e seus genes.
   Nisso um trovão anuncia a chuva, como vindas de bombardeiros naturais, gotas largadas das nuvens, iniciaram seu caminho em direção à terra seca, uma após outra caindo em gotas grandes, sobre o chão cansado.
   Logo ela sentiu a umidade invadir-lhe o corpo, umedecer sua alma. Refez-se em forças, surgiram-lhe no corpo frágil, desejos de vida e liberdade.
   Num ímpeto de esperança e força, rompeu os grilhões que a mantinham a muito cativa. Tinha resolvido viver; iria sim enfrentar problemas, ventos contrários, mas queria tentar; iria seguir adiante em seu existir. Ergueu com muito custo as mãos e pouco a pouco, pedaço a pedaço, foi retirando o peso, vencendo, erguendo-se do nada.
   Brotou pequena, escondida e segura na relva rasteira, viva e verde, arvore menina, broto e esperança de vida.
TEXTURAS...
JACARÉ DO PAPO AMARELO
(Caiman latirostris)




COCO VERDE
    Meio dia de uma baita terça feira, quente feito forno de pão no inferno.
    - Binhoooo!
   Estávamos lá, eu, Leo e Pereba, parados no portão, montados nas velhas magrelas, berrando pelo surdo do Binho.
    - Oh Binhooo!
    - Pô gente, tô saindo, tô colocando a camiseta.
    - Ah vá se fude! Camiseta com um calor desses, vai sem panaca.
    - Gosto não.
    - Num quer mostrar as tetinhas, retrucou Pereba. Ate então calado como sempre.
    -Vão tudo a merda! Resmunga Binho.
    - Olha a boca muleque!

    E a gente saia, pedalando feito um bando de malucos, em direção a Barra, praia. Pra nós na época, a coisa mais maravilhosa que havia na natureza.
    Depois de suar feito maratonista no Saara, chagávamos enfim ao paraíso.
Pepeu já a muito estava lá, dentro da barraquinha, vendendo suas comidas e suas bebidas, como sempre alegre e despreocupado.
    - Fala ai, maninhos, atrasados hoje?
    - O Binho, trocando as fraldas...
    - Já falei, vão tudo a merda!
    Largávamos as magrelas, encostadas nos fundos da barraca, e corríamos pra água, caiamos praticamente juntos, num “tchibum” uníssono.
Depois de algum tempo, tirando o suor e “salgando as partes”, íamos levar o lixo do Pepeu ate o coletor; era nossa tarefa, pagar pelo empréstimo, rápido, curtinho, mas sempre empréstimo da prancha velha e muito batida dele.
    O cara era o fera, mandava todas, peixe dentro d’água.

   Ficávamos assim a tarde toda, no por do sol, por trás do moro, a gente ia embora, alegres, cansados, felizes.
    -Tchau Pepeu!
    - Ate...
    -Tchau mano, ate amanhã.
    - Ate...Vê se chega mais cedo.
    - É só o Binho num atrasar...
    - Ah! Vão tudo a merdaa!!!
    Eu queria crescer logo, ficar logo “velho”, ter já meus vinte anos. Ia parar de estudar, montar uma barraca de coco verde na Barra, comprar uma prancha e fazer “que nem Pepeu...”.

    Hoje... Como as coisas mudam, como sonhos acabam ou nos são tirados.
    Crescemos, todos, ou quase todos.
   Leo perdeu um pé num acidente de carro, e virou farmacêutico em Cascadura, Pereba se alistou no exercito, anos depois, numa tentativa de assalto a seu carro, reagiu, foi morto. Binho mudou de estado, sumiu; muito tempo depois soube por outro, que ele tinha comprado um caminhão, tinha virado motorista, e vivia ainda, mandando todos a merda.
    E eu estou aqui escrevendo lembranças, afinal, acabei nunca comprando a tal barraca.
SAVACU
(Nycticorax nycticorax)

(Adulto)

(Jovem)




BALA PERDIDA
Uni, duni, tê.
Salamê, minguê; um sorvete colorê.
O escolhido foi... Você!


AR-15, brincadeira, dedo, gatilho, boca de cano; tiro...
O projétil passou zunindo pela fronte dele, vindo da janela estilhaçada. Passou pelas folhas do vaso de samambaia e pelo meio certinho, do peito de sua companheira.
Só houve tempo de ele virar-se assustado, e vê-la arfar, fazer cara de louca e cair de bruços, no chão; manchando de sangue o carpete novo, ainda por pagar.
Ele olhava para a janela quebrada e voltava a olhar pra ela caída, como que querendo entender alguma coisa, como que procurando fazer desesperadamente o tempo voltar atrás.
Nem correu em direção a ela, já não havia o porquê, a bala tinha aberto um buraco enorme em suas costas, antes de ir alojar-se quietinha na parede oposta, na moldura cinzenta do Renoir falso.
Segundos se passaram, ate que o mundo dele viesse ao chão, que fossem enfim, desencadeadas todas as cenas imagináveis para tal situação.
Berros, corridas nervosas a lugar nenhum, pedidos de socorro, desespero.
Fim.
Enquanto isso, acima do cume dos cumes; no alto dos altos; deuses meninos brincavam de destino:

Uni, duni, tê.
Salamê, minguê; um sorvete colorê.
O escolhido foi... Você!
ARARA VERMELHA
(Ara chloropterus)





GADO DE CORTE
   Numa sacada de um bar qualquer num país conhecido por ser excelente plantador de bananas.

   Levantai-vos bananeiros, levantai-vos contra o que vos oprime, às armas se preciso for; que derramemos se for imprescindível o nosso rubro sangue sobre o solo das ruas dessa nossa terra mãe.

   Mesmo que mães percam seus rebentos e mesmo que filhos venham a se tornar órfãos, será válido, para que de novo possamos nos ver livres das garras opressoras dessa tirania infame.

  Mesmo que morramos tentando; valera a pena, pois sempre vale a pena, a luta pela liberdade. Que nosso sacrifício possibilite enfim, que o “sol da liberdade em raios fulgidos, brilhe no céu da pátria, em todos os instantes”.

  Ergamos a cabeça, altiva e corajosamente, por sobre os vis, ofereçamos nossos peitos nus, ao tiro da canalha. Sejamos livres, se não na vida, então na morte heróica.

 - E ai, como fui?
 - Lindo companheiro ficamos arrepiados com o que você disse.
 - Será que fui convincente? Será que eles tomarão alguma atitude?
 - Sem duvida companheiro, já vejo as conseqüências desse teu discurso, estampado em jornais de todo o mundo.
 - Tomara!
 - Sem duvida, já posso ouvir o rumor crescente nas ruas. Com certeza, o povo já esta às ruas, bradando hino, lutando.
 - Ótimo, tens certeza disso?
 - Lógico companheiro!
 - Então...Garçom, trás mais uma, bem gelada e ligue a TV no canal do futebol.
MARRECO MANDARIM
(Aix galericulata)





ANIMAL IRRACIONAL
    A nevoa da manhã começava sutilmente a deixar a cena, a relva ainda mantinha as gotas do orvalho.
   O animal já a muito desperto, chegou sorrateiro junto ao pequeno córrego cristalino, baixou a cabeça e sorveu um gole.
    Longe, covardemente oculto num camuflado industrial, o irracional preparou o bote traiçoeiro.
   A massa encaixou certa no “v” da alça, a respiração já estava controlada e segura, o indicador roçava quase que sexualmente o gatilho polido, pressão inicial; tênue linha entre a pressão certa e o tiro ocorrido.
   Aperto final, click, recuo e um sopro, barulho perfeitamente abafado pelo eficaz silenciador.
   Projétil lançado rota traçada, vetor e trajetória. Objetivo, alcançado, mosca viva.
  Susto e impacto; respingo de sangue e carne, entrada sutil e saída em bloco, estouro de boiada, falta de vergonha. Tombo.
  Um escorrer de sangue, marcou em tinta rubra o local de entrada, uma falta de massa viva, indica e saída.    
  Estertor e pulsações involuntárias marcam a morte próxima; um ultimo arfar e um olhar vazio, anunciam sua chegada.
  Tudo ocorrido num átimo de tempo, num piscar de olhos; decisão, tiro e morte.
  Troféu de parede garantido, ego estúpida e irracionalmente inflado, caça morta, cheiro de sangue, gang, turba excitada; fim de caçada.
SILHUETA


MUDANÇA DE PLANOS

    Nas extremidades do arco dado à Íris, traçado multicolorido no céu, estava a corda, tensa, prensa, aguardando a mão e a fecha aguda, matreira, que iria atravessar as latitudes da esfera e cravar-se certeira do peito aberto do amante ardente, inclinado sobre o ventre nu e molhado, pronto e preparado.

   Beijo na boca, louca, interrompido pelo atrevido cupido, que com ela, flecha; fecha a boca oca e por um instante, distante, interrompe o beijo amante, paixão e volúpia gratuita.
 
  Coração dispara e para, pensante. Desejo de carne convertido em mente, paixão em amor ardente. Mudando um simples momento, em um amar pra sempre.
ULTRAPASSANDO O PASSADO...


NECESSIDADE
   Às vezes, é preciso meter o pé na porta,
arrebentar o trinco e fugir.
   Às vezes, é preciso desligar a tomada,
e lembrar que a vida não se mede em bits. 
   Às vezes, é preciso quebrar a vidraça do décimo andar,
chegar na janela e respirar um ar puro.
  Às vezes, é preciso, na estrada, acelerar mais que o permitido
e sentir o coração batendo.
  Às vezes, é preciso esquecer as responsabilidades
e fazer amor só pelo prazer.
  Às vezes, é preciso mandar o saldo à merda
e comprar aquele supérfluo que você tanto sonha.
  Às vezes, é preciso esquecer de você mesmo,
e amar intensamente alguém.
  Às vezes, mas só às vezes mesmo;
é extremamente preciso ser feliz.
GATO EM TOM PASTEL

Mr.Pipoca o gato da patroa.
 

Enquanto o homem não entender que mais valioso que ele próprio é a vida em si, independente da classificação que dermos a ela, vamos continuar assim; achando que animal é sinônimo de irracionalidade, quando a verdade é completamente oposta.
ARAPONGA COMUM
(Procnias nudicollis)


 
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POLICIA
"-Meu filho vaai ter...nome de saanntoo.."
E assim ia ele, subindo a ladeira da rua do morro do Alemão;
para o casebre de taubas tiradas das construção lá de baixo, de luz michada de poste com arame de cerca e com fogão de duas boca que era luxo só.Tinha ido buscar pão dormido no boteco do beco, que vendia mais im conta.
Moleque esperto, porque como dizia sempre:
"- Nego tonho, dôto, aqui num si cria não!"
Parou um pouco pra arrumar o bermudão que estava caindo, por falta de elástico, e seguiu em frente.
Ouviu um tropel, lá nos cantos de cima, uns manos correndo pra baixo, e deduziu que na certa, estava tendo outra batida.
Já andava cheio daquilo, policia subia, o pessoal descia,
policia descia, o pessoal subia; não mudava nunca.
Cruzou com Batata, esbaforido e suado, esboçou um sorriso, mas o outro nem olhou direito pra ele...Saco! Pensou, tenho que dar um jeito dos caras, gostar de mim, afinal, é trampo garantido, e com sorte chego a "correio", e tiro lá meus quinhentinho por mês. Muito mais que o pai falecido, tirava como auxiliar de pedreiro.
Acabou por chegar na porta do barraco, tramela estourada, abriu e um policial virou rápido, arma na mão, grito na boca.
"- No chão moleque! Agora!"
Só teve tempo de tentar pegar o bermudão que caia de novo...
Ouviu o estampido e mais nada, o três oitão abriu outro buraco na sua cara, caiu mortinho, mortinho.
Policia desceu, e o pessoal subiu, de novo, não mudava nunca!